sábado, 2 de abril de 2011

A TEORIA DA REMINISCÊNCIA - COMO SE EFECTUA O CONHECIMENTO HUMANO NO ÂMBITO DO MUNDO SENSÍVEL


A TEORIA DA REMINISCÊNCIA - COMO SE EFECTUA
O CONHECIMENTO HUMANO NO ÂMBITO DO MUNDO SENSÍVEL
A doutrina pitagórica da preexistência da alma é da máxima importância para Plao, porque lhe fornece a base da sua teoria do conhecimento. Para Platão as formas (as Ideias) e a alma pertencem a um mundo divino e transcendente, estranho ao devir, ao fluir das aparências, que caracterizam o mundo percepcionado pelos nossos sentidos. É portanto impossível, para Platão, admitir que a alma adquire o conhecimento das formas ou Ideias através dos sentidos, do corpo. Os objectos do mundo sensível, não sendo imutáveis e universais, não são, por si, inteligíveis. Contudo, parece que a alma chega ao conhecimento da verdade quando está no corpo e que as conhece com a ajuda dos sentidos.
Como é isto possível? A solução de Platão está na célebre teoria da anamnese ou reminiscência. Esta diz muito simplesmente que a alma conheceu as Ideias na sua existência divina e pura, anterior à encarnação num corpo e "recorda-se" das Ideias percepcionando mediante os sentidos as coisas particulares (sensíveis) que participam das Ideias. Assim ela atinge aparentemente, mas só aparentemente, através dos sentidos o conhecimento das realidades inteligíveis, das suas propriedades e relações. O papel do corpo e dos sentidos no verdadeiro conhecimento é assim completamente subordinado e acidental. O conhecimento da realidade é um encontro da alma com as Ideias. Consideremos duas coisas iguais, por exemplo dois pedaços de madeira. Uma coisa é a semelhança destes dois pedaços de madeira (ou seja, a semelhança sensível) e outra coisa é a semelhança em si, isto é, a ideia de semelhança. No entanto, nós só conseguimos atingir o conhecimento desta ideia se, na vida sensível, tivermos deparado uma ou outra vez com coisas semelhantes, tal como o podem ser precisamente dois pedaços de madeira: o conhecimento da semelhança sensível leva-nos ao conhecimento da semelhança inteligível.

Mas nós estamos conscientes do facto de a semelhança sensível não ser nunca rigorosa, mas sim defeituosa em muitos aspectos: a uma observação atenta, as coisas mais semelhantes apresentam sempre alguma diferença. A semelhança sensível tende a ser como a semelhança intelivel, mas não o consegue.
Ora bem, se ao perceber duas coisas semelhantes nós pensamos que esta semelhança tende, mas não consegue ser como a semelhança inteligível, é então necessário que esta última seja por nós conhecida antes e independentemente da percepção da semelhança sensível.
Para confrontar o senvel com o inteligível (já que aquilo que foi dito para a "semelhança" é válido para todas as ideias), é necessário que o inteligível seja conhecido antes e independentemente do sensível. Esta é a regra e o exemplo sobre cujo fundamento podemos desenvolver o nosso conhecimento do mundo. Tal quer dizer que o conhecimento do sensível tem a função de nos fazer recordar aquilo que já conhecíamos e que, evidentemente, havíamos esquecido, uma vez que é necessário o encontro com o sensível para que o inteligível se nos torne patente.
Na vida presente, o conhecimento humano é, portanto, reminiscência, recordação de um saber já possuído e depois esquecido. Visto que o nascimento do homem é também o início do seu conhecimento sensível, é necessário que o conhecimento do mundo inteligível (ou seja, o conhecimento da verdade) preexista ao nascimento. E visto que a alma é precisamente o conhecimento do inteligível, deve-se afirmar que a nossa alma préexiste à vida presente, ou seja, ao nosso tomar forma humana e ao nosso entrar, com o nascimento, no corpo e no mundo visível.

Como é que a alma, habitando o corpo e logo o mundo sensível, pode chegar ao conhecimento? A teoria da participação que diz que as realidades sensíveis participam das inteligíveis é essencial para a solução do problema. Ter reminiscência é, no contacto com as coisas sensíveis, recordarmo-nos de algo de diferente em virtude de uma certa semelhança. Assim, um quadro belo, por exemplo, é uma realidade sensível e, portanto, diferente da realidade inteligível que é a Beleza em si ou Ideia de Beleza. Contudo, o belo quadro tem algo que o aproxima da realidade inteligível. O quê? O facto de ser belo, de participar da ideia de Beleza. Assim ao observar o quadro (realidade sensível) e ao aperceber-me da sua beleza eu posso recordar-me da Beleza em si ao aperceber-me de que ele tem algo de semelhante, algo em comum com a Ideia de Belo. Assim o belo quadro (realidade sensível) permite-me recordar algo de diferente (a realidade inteligível da qual participa) em virtude de uma certa semelhança (a beleza). Sem a participação do mundo sensível no inteligível a alma não poderia ao observar uma realidade sensível lembrar-se do modelo inteligível desta.

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